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Tradução: Entrevista de Celso Amorim para a Die Presse da Áustria

Tradução do inglês por Daniel Cardoso Tavares
Nota: Aparentemente o MRE traduziu a notícia para o inglês.

 

O Ministro das Relações Exteriores do Brasil, Celso Amorim, defende o acordo nuclear com o Irã, rejeita as lições em direitos humanos e acredita que os mercados emergentes são o futuro.

Die Presse: Supostamente, existe um mapa do século XVI no seu escritório onde é possível ver o sul em cima e o norte em baixo…
Amorim (rindo): Fico muito feliz por saber que meu escritório é conhecido no mundo todo.

Die Presse: A crise financeira acelerou o processo que, no final, vai fazer o mundo ficar igual ao seu mapa?
Amorim: Eu acho. É um processo muito desejado e que não vai parar e não apenas pela perspectiva dos países como o Brasil, a Índia ou a África do Sul. Isso é bom para a comunidade internacional se mais visões de mundo são representadas em suas maiores instituições.

Die Presse: Quais visões de mundo traz o Brasil?
Amorim: Até mesmo o escritor austríaco Stefan Zweig’s notou que um dos maiores heróis do Brasil não é um general, que venceu algumas batalhas, mas um diplomata que resolveu questões de fronteiras de forma pacífica. Nós ainda mantemos essa posição.

Die Presse: Você e seu governo estão tentando por anos tornar-se um membro permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Existe alguma chance realista de uma reforma da ONU?
Amorim: Ela é inevitável, mas não sei quando e como acontecerá. Quem pensaria três anos atrás que o G20 tornar-se-ia um fórum mais importante que o G8? Quatro ou cinco anos arás, o Brasil e outros eram apenas convidados. O mundo mudou. Eu tenho participado nas negociações da OMC. Na Rodada Uruguai, tudo foi decidido pelos EUA, Europa, Canadá e Japão. A história da Rodada Doha foi escrita por outro G4, a União Européia, os EUA, mas também o Brasil e a Índia. Claro que é mais fácil mudar estruturas informais. Recentemente, Hubert Védrine (ex-Ministro das Relações Exteriores da França) disse algo que eu já tinha pensado: Maybe we need a new foundation of the UN.

Die Presse: O G20 foi criado na crise financeira. Esse fórum transformar-se-á em um novo governo mundial?
Amorim: Não um governo mundial. Não podemos ditar o que fazer aos outros 172 países da ONU, mas o G20 é um importante fórum de coordenação. Claro, o G8 pode continuar a conversar, mas isso não afetará o curso do mundo. Não eu, mas o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial diz que o crescimento econômico global para os próximos anos depende das economias emergentes. As instituições que mudarão de forma mais difícil são aquelas que lidam com paz e segurança, desde que lá estão as bases do real poder e ninguém lá quer aceitar o fato de que existem novos atores (players).

Die Presse: Um Estado deve ter armas nucleares para poder participar da primeira divisão do poder?
Amorim: Nós não acreditamos nisso. Em nossa Constituição, determinamos que o Brasil use a energia nuclear apenas para fins pacíficos, mas o fato de que o CSNU resiste a reformas e que tem as potências nucleares como membros permanente, algo que é aceito pelo tratado de não-proliferação, dá a impressão de que as armas nucleares são importante pré-requisito.

Die Presse: Quando perguntamos sobre uma Venezuela paulatinamente mais ditatorial, você disse que vocês não interferem nos assuntos internos dos outros. Não seria esse um passo para trás?
Amorim: Não queremos dar lições a ninguém. Isso não significa que não estejamos interessados no destino das pessoas em outros países. Não-interferência é acompanhada pela não-indiferença. Em direitos humanos não existem apenas professores e pupilos. Recentemente, regularizamos muitos imigrantes irregulares em meio à crise. Eu espero que a Europa faça o mesmo.

Die Presse: Você recebe muitas críticas pela tentativa fracassada de mediar a disputa nuclear com o Irã. O que o Brasil ganhou com isso?
Amorim: Quem diz isso tem um horizonte muito estreito. Porque somos membros do Conselho de Segurança agora? Para ganhar influência na agenda de segurança. No caso do Iraque nós vimos tudo o que pode dar errado. Quando acontecer uma guerra no Irã haverá elevação no preço do petróleo e mais terrorismo. A paz tem um preço.

Die Presse: Antes de você e a liderança turca viajarem para Teerã, você já sabia que os EUA e a Europa não aceitariam o acordo com os iranianos.
Amorim: Eu não poderia fugir das expectativas criadas pela carta do Presidente Obama que nós recebemos três semanas antes de assinar a Declaração de Teerã. Também os telefonemas…
Eu tive uma conversa com Hillary Clinton e outros nas semanas anteriores à visita ao Irã e eles disseram que suas expectativas iriam além do Acordo de Teerã, mas eu claramente afirmei que aquilo não estava na carta de Obama. E a resposta do outro lado da linha foi um profundo silêncio.

Die Presse: O CSNU ignorou o acordo e impôs sanções contra o Irã.
Amorim: A esse respeito, eu posso apenas teorizar. Nós não resolvemos todos os problemas, mas o Irã estava pronto para deslocar 1200kg de urânio levemente enriquecido para a Turquia em troca de material enriquecido para fins medicinais. Eu posso apenas citar o ex-chefe da AIEA Mohamed ElBaradei: “O CSNU não aceita o “sim” como resposta”.

Die Presse: Você está pronto para negociar mais?
Amorim: Se nossa ajuda for necessária, tudo bem, mas isso precisa ser dito de forma clara para nós.

Die Presse: O mandato do presidente Lula termina no próximo ano. Você continuará sendo o Chanceler?
Amorim: Não, não. O mundo como um todo precisa de renovação.

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