(Resumo) Um Enigma Chamado Brasil: Joaquim Nabuco
Por Daniel Cardoso Tavares (vide fonte ao final)
Tendo a política como alma, Joaquim Nabuco produziu obras que perturbam e apaziguam os leitores. O Abolicionismo, Um estadista do império e Minha formação, são essas as obras que brotaram em momentos-chave da trajetória desse político, diplomata e monarquista.
Nabuco Reformista
O pai de Joaquim Aurélio Barreto Nabuco de Araújo (1849-1910), José Thomaz Nabuco de Araújo, encaminhou o filho para a carreira política, tendo sido ele próprio ocupante de importantes posições no Segundo Reinado.
Nabuco estreou no Parlamento em 1879, após ter ganho experiência na diplomacia (Washington e Londres), tendo como base sua formação em direito, comum caminho trilhado pela elite política do império.
Engajou-se no movimento abolicionista, criando, junto com André Rebouças, a Sociedade Brasileira contra a Escravidão. A notoriedade ganha não lhe rendeu a reeleição, então foi trabalhar como corresponde em Londres para o Jornal do Comércio. Em 1883 publicava O abolicionismo.
Imbuído dos ideais liberais radicais, o livro, que tinha prosa seca, com poucas citações, mas com remissões à mitologia greco-romana e símbolos religiosos – a escravidão como “mancha de Caim” –, conclama apoiadores e propõe reformas imediatas, levadas à frente por um partido abolicionista. Era uma retórica que falava ao cérebro e ao coração.
Quatro teses o livro sustenta:
1 – A ilegalidade e ilegitimidade da escravidão: que não estava presente nem nas leis, nem no direito natural;
2 – A incompatibilidade da escravidão com a modernidade: inconciliável com a civilização moderna, sob um olhar que, como o de toda a sua geração, era mais socioeconômico que historiográfico;
3 – Trinômio vicioso: organização social com base no latifúndio, na monocultura e no comércio de escravos; e a principal:
4 – A escravidão como herança que adquiriu caráter de “sistema social”: que estruturava todas as instituições e práticas. Ela esgotou e concentrou a terra, assim como impediu o desenvolvimento da um operariado assalariado e de classes médias, condenando os homens livres à dependência dos grandes proprietários. Na política, impediu a formação de uma opinião pública autônoma. Na cultura, semeou todos os germes da decadência no seio das famílias, da religião e do trabalho.
Nabuco percebe que a escravidão não se extinguiria apenas por uma lei. Necessitava de uma refundação. Uma nova sociedade, com a atração de imigrantes europeus de classe média e a instituição da pequena propriedade.
Queria Nabuco que houvesse uma conciliação nacional, de forma a efetivar, sem rebeliões, as mudanças legais. Era um reformista que falava em nome dos escravos, arvorando um “mandato da raça negra”.
Era, porém, ambivalente quanto ao uso das teorias raciais. Seu livro oscila entre o caráter socialmente construído da desigualdade e a inferioridade de negros e chineses. Só nisso seu livro pertence ao seu tempo.
Nabuco Historiador Monarquista
Após a abolição, permaneceu defensor da monarquia, enquanto seus correligionários faziam a República. No pequeno partido monarquista, execrou o estilo de vida da República, o americanismo, positivismo, centralismo e militarismo, em Balmaceda (1895) e A intervenção estrangeira durante a revolta (1896).
Em Um estadista do império. Nabuco de Araújo: sua vida, suas opiniões, sua época (1897-1899), escreve uma biografia do pai, em conjunto com uma história de sua época. Utilizou ampla documentação primária (documentos do Parlamento, notícias de jornais, correspondências, etc.) e deu um verniz envelhecido à narrativa. O charme do livro está ao juntar o ar aristocrático com a moral ilibada, coragem cívica, feitos formidáveis e, ao mesmo tempo, os defeitos que humanizam. O livro constrói figuras que demandam enaltecimento.
Um estadista estrutura-se em oito livros. Começa pela formação política de Nabuco de Araújo, passando pela construção da ordem política centralizada e pela reação liberal da Praieira. Segue-se a Conciliação, que equilibra o poder local e nacional, abolindo o tráfico de escravos e impulsionando o desenvolvimento. A seguir vem o protagonismo do pai com a Liga Progressista, com reformas travadas pela guerra do Paraguai. A ela segue-se grave crise política, tendo como ponto alto o gabinete de Rio Branco e sua Lei do Ventre Livre. O regime, então, declina. Termina o livro com o enaltecimento do pai e com um balanço do império.
Nabuco não fala com detalhes dos anos 1880. Passa ao largo dos laços que uniam a monarquia à escravidão. A explicação para a mudança do regime ancora-se à idéia de decadência, restrita à política. Com a morte dos estadistas, nos anos 1870, teria havido uma substituição de elites, afundando a política aristocrática na politicagem republicana dos interesses. O livro é parte da guerra simbólica entre monarquistas e republicanos.
Nabuco Memorialista
Em Foi Voulue. Mysterium Fidei (1892), Nabuco narrou seu abandono e retorno ao catolicismo em livro não publicado.
Em 1899, ele aceita cargo diplomático na Europa. Juntando textos dos anos 1890, escreve a autobiografia Minha Formação (1900). O texto exala sua nostalgia monárquica. A narrativa destaca momentos decisivos: primeiro a formação aristocrática, incluindo suas viagens, que ocupam a maioria dos capítulos. Guiado pela “atração do mundo”, desabrocha o cosmopolita.
Nabuco atribui suas convicções políticas à admiração pelo Velho Mundo, sobretudo pela monarquia reformada inglesa, em contraste com a França revolucionária e a democracia norte-americana, o modelo aplicado no Brasil.
Em flashbacks, depois, surgem os tempos primeiros. “Massangana” narra a infância no interior de Pernambuco, no engenho de fogo morto. A carreira política vira um “acidente”, seu abolicionismo é romantizado na história de um “juramento” de conversão. As convicções políticas aparecem como sentimentos. O memorialismo rouba a cena até quando se ocupa da política. Limita-se a falar do pai, traçar perfis e ajustar contas com correligionários, respondendo a críticas. A abolição é atribuída mais à ação parlamentar e à família imperial, que “sacrificou” o trono, do que ao movimento abolicionista. Seu ativismo é considerado apenas uma “passagem pela política”.
O último capítulo, enuncia o dilaceramento que vive entre a “pátria” e o “mundo”, entre a monarquia e o emprego republicano. Dai o recalque de sua persona reformista e monarquista, em favor de uma representação mais genérica, como liberal e literato, juntando-se aos formadores da Academia Brasileira de Letras. Nabuco contrasta a superioridade dos estadistas do Império com o despreparo dos republicanos. Nesse sentido, Minha formação prolonga Um estadista.
“Massangana” exprime a saudade de um mundo morto.
Legados de Nabuco
Seus livros suplantaram as intenções do autor. Suas teses foram debatidas e elevaram-no à condição de clássico. Alimentou três linhagens de interpretação do Brasil.
Leitores de O abolicionismo seguiram sua análise estrutural da dinâmica socioeconômica e do conflito entre grupos sociais.
Um estadista norteou uma historiografia mais atenta às instituições e à elite que aos movimentos da sociedade civil.
De Minha formação fica o foco na cultura e um narcisismo narrativo, notado em Gilberto Freyre. Nele e em outros escritos nordestinos, mostra-se a imagem da sociedade brasileira a partir da casa-grande e a nostalgia da tradição em decadência.
Renderam mais seus livros marcados pelo ostracismo, ou pela escrita no estrangeiro ou pelo foco no passado, caracterizados pelo distanciamento, do que seus livros com cor local: Balmaceda, a Intervenção estrangeira, L’Option e Pensamentos soltos.
Sua biografia sugere que seu talento de historiador e de ensaísta cozinharam nas brasas da política, contrariando o que induz a leitura de Minha formação.
Fonte: Um enigma chamado Brasil: 29 intérpretes e um país. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
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