Arthur Melo: Egito e a Luta por Democracia
Por Arthur Melo
Apesar de o Egito ser o berço de uma das civilizações mais antigas e criativas da humanidade, tem sua história marcada por governos autoritários e ditatoriais, onde a democracia não tem vez. Da segunda metade do século XX até hoje o governo egípcio tem sido motivo para manifestos populares.
Em 23 de julho de 1952, o rei Faruk I foi deposto em um golpe militar pelo Movimento dos Oficiais Livres, liderado por Gamal Abdel Nasser, insatisfeito com a corrupção do governo e com a derrota árabe na primeira guerra entre árabes e israelenses (1948-1949).
Nasser assumiu o poder e fundou o Egito moderno ao proclamar a República. Em 1956 anunciou a nacionalização da exploração do Canal de Suez, que desencadeou a Crise de Suez, que terminou com um ataque conjunto de Israel, França e Reino Unido ao Egito. Cinco dias pós ser derrotado na Guerra dos Seis Dias, Nasser renunciou, mas voltou atrás quando os egípcios foram às ruas pedir a sua volta. Morreu por um repentino ataque cardíaco em 1970, e levou consigo a culpa por ter transformado o Egito em um dos países mais pobres do mundo.
Anwar Al Sadat sucedeu Nasser, que ao assinar com Israel os Acordos de Camp Davis em 1978 e um acordo de paz bilateral em 1979, proporcionou uma forte mudança da política externa do país. Foi chamado de “traidor” quando o Egito foi expulso da Liga Árabe. Morreu durante o desfile militar de 6 de outubro de 1981, quando membros da Jihad Islâmica Egípcia contra a tribuna presidencial, vários seguranças também foram mortos.
Mubarak até então vice-presidente, assume o poder no qual está até hoje, cumprindo seu quinto mandato. Planejava deixar seu filho, Gamal Mubarak, como seu sucessor, seguindoo modelo de república hereditária vigente na Síria. Mas milhares de manifestantes foram às ruas para pedir a sua renúncia e a instauração de uma verdadeira democracia.
Os egípcios têm como exemplo os protestos populares da Tunísia, que culminaram na queda do regime do presidente Zine El Abidine Bem Ali em 14 de janeiro.
As proporções atingidas pelos movimentos egípcios fizeram com que o mundo voltasse seus olhos ao Egito, para acompanhar a luta do povo em busca da tão sonhada democracia. Os Estados Unidos, conhecido pela sua forte política externa, inicialmente preferiu a omissão. Mas nessa sexta-feira (4), segundo o New York times, a Casa Branca discute com autoridades egípcias uma proposta para que Mubarak renuncie imediatamente e entregue o poder a um governo de transição chefiado pelo vice-presidente Omar Suleiman.
Ainda segundo o jornal, Suleiman contaria com o respaldo do chefe das Forças Armadas, Sami Enan, e do ministro da Defesa, Mohamed Hussein Tantawi. O governo interino incluirira integrantes de diferentes grupos de oposição, incluindo a Irmandade Muçulmana, principal força opositora do Egito, até que eleições fossem convocadas em setembro.
Resta-nos aguardar para ver o desfecho dessa revolta popular, que simplesmente busca dar ao povo o poder de decisão política, pondo fim aos governos autocratas que dominaram o Egito durante séculos. Com a saída de Mubarak precisaremos ficar atentos a quem assumirá o poder, pois o triunfo da “revolução” pode abalar não somente a estrutura política interna do país como também as relações externas e todo o Oriente Médio.
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