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Nonsense: "O Trem da Mistificação"

Comentários por Daniel Cardoso Tavares
Fonte: Veja

 

Não há dúvida de que é agradável viajar em trens de alta velocidade. Esse tipo de transporte é pouco poluente, rápido e confortável.  No entanto, sabe-se também que é ainda melhor morar em um país que possui escolas públicas de boa qualidade para qualquer criança, independente do local de nascimento ou do poder aquisitivo da família, como ocorre na Finlândia.  É também agradável morar em um país em que os hospitais são tão bons que não se sabe quais deles são públicos ou privados, como acontece na Alemanha.

O ideal seria morar em um país que possuísse boa infraestrutura, inclusive com disponibilidade de trens de alta velocidade, boas escolas, com professores capacitados, e excelente serviço de saúde pública.

Infelizmente, o Brasil ainda está longe de ser esse país; assim, não pode se dar ao luxo de embarcar em aventura de elevado custo, cujo retorno social é altamente incerto.  O projeto do trem-bala não é prioritário para um país que ainda sofre para melhorar a qualidade do seu ensino, melhorar os serviços de saúde e recuperar a infraestrutura que tira a competitividade do setor privado, devido à carência de investimentos em portos, aeroportos, energia e rodovias, como mostraram vários estudos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (comunicados nº 48, 50, 51, 52 e 54).  Projetos de trens de alta velocidade são caros em qualquer lugar do mundo, e o Brasil não é exceção. O projeto do trem-bala brasileiro está orçado em R$ 33 bilhões, mas nesse valor não está incluída a parcela de reserva de contingência para arcar com eventuais custos não programados do projeto.

Some-se a isso os fatos de o projeto envolver subsídios de até R$ 5 bilhões para as concessionárias e de a maior parcela do financiamento ser de recursos do BNDES, que não os tem e vai precisar de mais um empréstimo do Tesouro Nacional, como autorizado pela medida provisória nº 511, de 5 de novembro de 2010, que empresta R$ 20 bilhões para o BNDES financiar o projeto.

É bom olhar o exemplo dos casos dos trens de alta velocidade da Itália, que começaram como projetos de parceria público-privada e terminaram sendo absorvidos integralmente pelo setor público, devido a sucessivos aumentos no custo de tal projeto. Isso levou a um aumento da dívida pública e do deficit público em mais de um ponto percentual do PIB.

No Brasil, o custo do trem-bala é tão incerto que a medida provisória acima mencionada dá carta branca para que o ministro da Fazenda renegocie esse empréstimo para 20, 30, 40 anos ou mais para compatibilizar o fluxo caixa do banco ao financiamento do projeto. Adicionalmente, o artigo 4º dessa mesma medida estabelece que, no caso de não pagamento, o BNDES será perdoado da dívida, que será arcada, integralmente, pelo Tesouro Nacional (leia-se nós, contribuintes).

Projeto de trens de alta velocidade têm elevado custo fiscal e não se sustentam sem elevados subsídios públicos. Esse não é um investimento prioritário para o Brasil neste e nos próximos anos, principalmente quando se reconhece que ainda precisamos avançar, além dos investimentos em saúde, educação e infraestrutura, na agenda de desoneração tributária da folha salarial e do investimento, que ainda não avançou por conta da impossibilidade de o governo abrir mão de receita fiscal.

 

Comentário estilo "quebra-cabeças"

Nota: como  eu sou um hiper entusiasta das ferrovias, preciso usar argumentos alheios para que não xingue o autor sem parar, em um "burst emocional" descontrolado.

 

Em Hobsbawn (A Era dos Impérios 1875-1914)

Veja mais informações na livrariacultura.com.br/

Página 48

Eram as 100 mil locomotivas (200-450 HP) que puxavam seus quase 2.75 milhões de carros e vagões, em longas composições, sob bandeiras de fumaça. Elas faziam parte da inovação de maior impacto do século, sequer sonhada cem anos antes – ao contrário das viagens aéreas -, quando Mozart escreveu suas óperas.

Vastas redes de trilhos reluzentes, correndo por aterros, pontes, viadutos, passando por atalhos, atravessando túneis de mais de quinze quilômetros de extensão, por passos de montanha da altitude dos mais altos picos alpinos, o conjunto das ferrovias constituía o esforço de construção pública mais importante já empreendido pelo homem.

Elas empregavam mais homens que qualquer outro empreendimento industrial. Os trens alcançavam o centro das cidades – onde suas façanhas triunfais eram festejadas com estações ferroviárias igualmente triunfais e gigantescas – e às mais remotas áreas da zona rural, onde não penetrava nenhum outro vestígio da civilização do século XIX.

Por volta do início dos anos 1880 (1882), quase 2 bilhões de pessoas viajavam por ano pelas ferrovias, a maioria delas, naturalmente, na Europa (72%) e na América do Norte (20%). À época, nas regiões "desenvolvidas" do Ocidente, muitos poucos homens, talvez mesmo muitas poucas mulheres, cuja mobilidade era restrita, deixaram de entrar em contato com a ferrovia em algum momento de suas vidas.

É provável que o único outro subproduto da tecnologia moderna mais universalmente conhecido fosse a rede de linhas telegráficas em sua infindável sucessão de postes de madeira, com uma quilometragem trê sou quatro vezes superior à da totalidade de ferrovias do mundo inteiro.

Página 81

(…) Considerando apenas a Europa, entre 1880 e 1913 foi construída a mesma quilometragem de ferrovias que na "idade da ferrovia" inicial, entre 1850 e 1880. França, Alemanha, Suíça, Suécia e Holanda aproximadamente duplicaram suas redes ferroviárias nesses anos.

Página 95

Mas a navegação, mercante mundial, entre 1840 e 1870, passou só de 10 a 16 milhões de toneladas, para dobrar nos quarenta anos seguintes, enquanto a rede ferroviárias mundial passava de pouco mais de 200 mil quilômetros (1870), a mais de 1 milhão às vésperas da Primeira Guerra Mundial.

Vídeo com a evolução das ferrovias nos EUA (1830-1990)

Comparação: Ferrovias no Brasil e no Mundo

Nota: Eu sei… alguns vão dizer que "são países desenvolvidos e blá blá blá". Ok, por isso eu vou comprar com a Índia e a  Argentina também.

Nos EUA:

Fonte: http://www.mapsofworld.com/usa/usa-maps/usa-rail-map.jpg

usa-rail-map

 

Na França: http://www.railplus.com.au/images/maps/france-rail-map.jpg

 

france-rail-map

 

Na Inglaterra: http://www.raileurope.ca/cms-images/518/93/united-kingdom-map,0.gif

united-kingdom-map,0

 

Na Alemanha: http://www.railplus.com.au/images/maps/germany_map.jpg

germany_map_rail

 

Na Índia: http://indian-railway.in/wp-content/uploads/2008/08/india_railway_map-273×300.png

india_railway_map-273x300

 

Na Argentina (34,059 km contra 29.706 do Brasil): http://1.bp.blogspot.com/

Argentina_Railway_Network_Map 

 

No Brasil: http://www.brastan.com.br/downloads/ferrovias_brasil.jpg

ferrovias_no_brasil

 

 

"A New Foundation For Our Future Growth"

Palavras-chave e frases do vídeo de Obama:

  • Perda de produtividade.
  • Gasto com combustíveis.
  • Aeroportos lotados.
  • "Estamos reféns dos preços flutuantes da gasolina".
  • Enchemos o ar com gases poluentes.
  • O que precisamos é de um sistema de transporte inteligente, igual à necessidade do século XXI.
  • Um sistema que reduza o tempo de viagem e aumente a mobilidade.
  • Um sistema que aumente a produtividade.
  • Um sistema que reduza a estrutura de emissões e crie empregos.

 

Vídeo Promocional (mas não menos verdadeiro)

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