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Entrevista com Embaixadora do Brasil na Costa do marfim, Maria Auxiliadora Figueiredo

Fonte: Zero Hora

— Estou indignada. Sabe quando se parte o coração? O número de mortos é muito grande, por uma bobagem, um absurdo.

Fazia 15 minutos que Zero Hora conversava por telefone com a embaixadora do Brasil na Costa do Marfim, Maria Auxiliadora Figueiredo. Ela interrompeu a entrevista para dizer que estava "falando demais". E fez a declaração acima, com a voz embargada — depois, confessou ter chorado naquele instante.

Mesmo assim, continuou falando. Aos 17 minutos da entrevista de meia hora, parou novamente. Tocava outro telefone na residência da embaixadora. ZH ouviu o que ela dizia para uma brasileira chamada Marlene, a quem um desconhecido, no interfone, pedia que descesse do seu apartamento.

— Marlene, a porta está trancada? Ai, meu Deus! Você tem como chamar alguém? Ai, meu Deus do céu, ai Marlene, ai, e agora? Marlene, fala que você vai chamar seu marido (Marlene não tem marido. A embaixadora recomendou que ela inventasse um marido para impor respeito). Tá bom, Marlene. Tchau.

A Costa do Marfim vive uma disputa entre o presidente eleito, Alassane Ouattara, e o derrotado na eleição do ano passado, Laurent Gbagbo, que quer permanecer no poder. Na segunda-feira, a ONU, com a França à frente, bombardeou Abidjan, onde fica a embaixada.

Preparava-se o "ataque final", por terra, para permitir a posse de Ouattara, a quem Gbagbo acusa de fraude. A embaixadora lamenta as mais de mil mortes. Confira trechos da entrevista:

Zero Hora — A senhora presenciou os ataques hoje? Como foram?

Maria Auxiliadora Figueiredo — Sabe o Kuwait (a primeira guerra do Iraque, em 1991)? Sabe aqueles que a gente vê em filmes do Kuwait? Sabe aqueles negócios vermelhos cruzando o céu? Foi o que a gente viu há pouco. São quase 21h aqui. Começou por volta das 18h. Foi o primeiro ataque aéreo. Até agora, a guerra era entre as forças pró-Ouattara e as pró-Gbagbo. São ataques da ONU e das forças francesas.

ZH — A senhora estava preparada para esse ataque?

Maria Auxiliadora — Eu tinha notícias de que eles iriam começar. Mas eu não queria acreditar…

ZH — A senhora viu tudo?

Maria Auxiliadora — Vi esses riscos no céu. Fui para o abrigo?


ZH — É um abrigo subterrâneo?

Maria Auxiliadora — No andar de baixo. E ouviam-se tiros.


ZH — Como foi o alerta?

Maria Auxiliadora — Já estávamos preparados para descer e ficar abrigados. Militares brasileiros me avisaram, e eu desci as escadas. Eu estava na sala da TV, no primeiro andar. As três crianças da vizinha, a minha cachorra… Temos estrutura para abrigados.


ZH — A senhora ficou calma?

Maria Auxiliadora — A questão é que me parte o coração. É triste ver as pessoas sofrendo, um sofrimento por tão pouco…


ZH — Quanto tempo a senhora ficou no abrigo?

Maria Auxiliadora — Entre meia e uma hora. Eu não sei, eu não contei.


ZH — Como estão os brasileiros?

Maria Auxiliadora — Não consegui resgatar brasileiros para vir para cá. As ruas estão intransitáveis. Você tem barreiras de proteção ao bairro, que é onde fica a residência presidencial. Tinha um escudo humano. Temos brasileiros também em locais perigosos. Eram 120 até a semana passada. Alguns já se foram. Houve brasileiros que tiveram suas casas saqueadas.

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