Projeto Prevê Infiltração em Organizações Criminosas e o Cometimento de Crimes Para Manutenção do Disfarce
Por Daniel Cardoso Tavares
Fonte: Estado de S. Paulo
É uma arma nova, complexa, arriscada, mas considerada valiosa em investigações contra organizações criminosas. Projeto de lei patrocinado pelo governo, aprovado pelo Senado e que está sendo retocado na Câmara permitirá a infiltração de agentes em organizações criminosas. Policiais que terão licença para cometer crimes quando estritamente necessário para manter o disfarce e que verão de dentro o funcionamento de quadrilhas.
O projeto estabelece uma série de restrições e cuidados, especialmente para evitar abusos de policiais infiltrados. Cuidados com os quais o governo e a Polícia Federal concordam, mas que podem ser alterados e avaliados caso a caso. Assim, o juiz que estiver cuidando do processo contra a organização criminosa estabelecerá os limites para a atuação dos agentes infiltrados, inclusive os crimes que os policiais poderão ou não cometer.
O tema é polêmico, mas a aprovação do projeto é uma das prioridades da Estratégia Nacional de Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro (Enccla), responsável pelo anteprojeto que tramita no Congresso. Hoje, a infiltração é rara. Além das dificuldades operacionais, a legislação deixa o agente infiltrado a descoberto. Há casos em que policiais foram processados por ter de cometer os crimes que estavam sendo investigados em segredo.
Limites a definir
Depois de regulamentada, a infiltração poderá se tornar uma técnica mais comum no combate ao crime organizado. "Será uma ferramenta muito válida para aprofundar investigações. Uma vez regulamentada, vai ser muito usada", afirma o diretor do Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Jurídica Internacional do Ministério da Justiça, Ricardo Saadi.
O ponto mais polêmico do texto refere-se a crimes que não poderiam ser cometidos por agentes infiltrados. O projeto estabelece que será processado o agente que cometer "crimes dolosos contra a vida", como homicídio, crime contra a liberdade sexual, como estupro, ou tortura.
Mas esses limites podem ser retirados do texto. A explicação: se uma organização criminosa conhece os limites da lei e desconfia que um dos integrantes é um agente infiltrado, poderá ordenar que ele cometa um desses crimes. Caso se negue, para evitar eventuais processos, será descoberto e estará com a vida em risco. Mas isso não significa que o agente infiltrado poderá cometer tantos e diferentes crimes quanto achar necessário.
"Estamos lidando, de um lado, com a integridade física do agente. Por outro lado, isso não pode ser salvo-conduto para cometimento de abusos", explica o secretário de Assuntos Legislativos do Ministério da Justiça, Marivaldo de Castro Pereira. Por isso, o projeto estabelece que a infiltração precisará de autorização prévia da Justiça.
Um pedido de infiltração poderá ser negado, por exemplo, se o juiz identificar o risco de o policial ser levado a cometer crimes graves, como homicídios, para não prejudicar as investigações.
Comentário
Essa situação é extremamente polêmica, mas eu acredito que não deva haver esse tipo de licença.
Eu penso que o Brasil não tem bandidos inteligentes ( "bandidos inteligentes" não usam explosivos para explodirem caixas eletrônicos, mas sim para fins políticos: vide a máfia) o suficiente para não serem pegos com simples investimento em penitenciárias inteligentes, maior número de juízes (hoje há concursos mais difíceis que o necessário evitando a entrada de maior número deles), policiais motivados, equipamentos e pessoal (em quantidade), a fim de que saiamos da situação de milhares de processos atolados, crimes sem adequada catalogação pela polícia criminalística etc.
Voltando ao aspecto teórico da coisa, imagine um caso em que uma mulher seja estuprada por um "policial disfarçado"; ou que o filho de alguém com acesso à mídia for morto por um deles: eu sinceramente acho que a reação popular seria absurdamente forte, talvez até de uma forma que nunca vimos no Brasil.
O Brasil parece um país apático, sem energia para lutar contra suas mazelas, acostumado com a aceitação da corrupção etc., mas a teoria da psicologia sempre mostra que, da mesma forma como um sujeito extremamente calmo pode tornar-se extremamente agressivo (lembre-se que agressivo não é o mesmo que violento), um povo extremamente passivo pode tornar-se muito agressivo. Trata-se da conversão da energia psíquica em sua forma oposta quando esta chega a um dos extremos, conforme definição de C. G. Jung.
O povo do Brasil só precisa da faísca certa para explodir.
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E aquele princípio bom, que é sobre ser melhor ter muitos criminosos livres do que um inocente condenado, acabaria.