Política Externa Brasileira, Defesa, Desenvolvimento Nacional, Concurso do IRBr para Diplomata (CACD)

Por Daniel Cardoso Tavares

 

 

Nos últimos tempos, estive em contato estreito com conhecimentos e práticas na área de Gestão da Qualidade, que tem como coração os padrões da família ISO, em especial a 9000 e 9001.

Em minha tentativa constante de juntar os temas mais diversos em um único corpo (afinal acredito que, em termos genéricos, a divisão em áreas de conhecimento é um problema) e lembrando sempre dos clichês que cercam o sistema comunista (que de fato nunca chegou a ser implementado, tendo sido testado apenas o socialismo nas mais diferentes formas, cada uma com seus benefícios e problemas) venho a sugerir um nova forma de gerir um sistema voltado para o comunismo (isso é, um socialismo não estagnado).

O principal ponto a notar, já tendo vencido a falácia de que no comunismo não há desenvolvimento tecnológico aqui, é que sempre houve grande crítica aos serviços do Estado (brasileiro no caso), o que poderia servir de balde de água fria nas pessoas menos idealistas e mais presas ao passado. Vamos, assim, analisar, por cima, as razões pelas quais, de forma geral, o Estado tem a fama de mal prestador de serviços.

Em termos gerais, qualquer forma de capitalismo privilegiará a chamada “livre iniciativa”, que é a possibilidade de qualquer pessoa, em teoria, investir em seu próprio negócio e ficar rica. De fato, a maior coluna de sustentação do capitalismo ao longo do tempo é o famoso mito de que “qualquer um pode ficar rico se tiver alto nível de educação ou se trabalhar até sair sangue pelos olhos”. Quem realmente trabalha suando sangue sabe muito bem que nunca ficará rico. Então, sabemos que esse conceito é uma simples ilusão. No sistema capitalista, a quantidade de pessoas que sai de um estado de pobreza para a riqueza é patética em relação ao número de pessoas ricas que continua assim ou aumenta sua riqueza. É algo tão lógico que nem é preciso ir muito a fundo para fazer-me entendido.

A engrenagem conhecida do capitalismo

Voltando ao ponto da livre iniciativa, é função do Estado, dentro da perspectiva capitalista, investir o mínimo possível na prestação de serviços e permitir que a “livre iniciativa”, guiada magicamente pela “mão invisível do mercado”, supra as necessidades humanas. O Estado abdica de seu poder de inteligência central da sociedade e a larga ao relento, torcendo para que forças incontroláveis façam o melhor por ela. Esse princípio por si só mostra-se totalmente irracional. Se existe uma organização que pode, de forma estruturada, reunir mentes a fim de pensar a melhor forma de organizar o Brasil, porque abdicar desse tipo de iniciativa em prol, literalmente, da lei da selva? Não faz sentido.

Começa a fazer sentido, porém, se uma complexa cadeia de benefícios for observada: os políticos, levados ao poder por gigantescas máquinas de convencimento (literalmente: quem tem mais dinheiro para propaganda tem maiores chances de vencer eleições) ou prestação de favores espúrios (geralmente envolvendo grupos de interesse que “vendem-se” em troca de benefícios fiscais ou concessões diversas, assim como forma de colocar seus pares em cabides de emprego), precisam suprir duas fontes assim que chegam ao poder: seus financiadores de campanha (que compraram suas almas e querem retorno do investimento… e com lucro!) e seus padrinhos. Essa simples ligação espúria e pouco voltada ao interesse público, que é 99,9% presente (a não ser no caso de “famosos” que chegam ao poder vindos de outros cantos e sobre as próprias pernas) garante a sobrevivência do capitalismo (a não ser que seja alvo de um movimento revolucionário) como grande máquina de concessão de benefícios aos já ricos e poderosos, assim como a empresas financiadoras de campanha (ou até mesmo aquelas que, por seu “peso no mercado”, podem prejudicar futuras reeleições).

Assim, entende-se que o interesse público em sentido macro, que poderia ser atingido por meio da reunião de intelectuais e planejadores estratégicos, acaba sendo deixo ao sabor da lei da selva.

A ação do Estado para suprimir o capitalismo

Toda e qualquer intervenção do Estado na forma de criar empresas de prestação de serviços vai contra a lógica maior do capitalismo, restringindo a livre iniciativa de forma instantânea: afinal, o Estado é quase onipotente, podendo agir com força policial em qualquer situação e podendo imprimir moeda quando fizer-se necessário. Surgem, assim, dois campos tradicionais na economia capitalista: os defensores de liberdade total de um lado versus os defensores de intervenções cirúrgicas do Estado por outro (geralmente chamados de liberais, os primeiros, e keynesianos).

Aqui, podemos trazer as tradicionais referências históricas da má qualidade do serviço do Estado quando entra em substituição à lei da selva (a lei da selva é a inevitável negação de qualquer inteligência humana –> por sinal, inteligência é sinônimo de rompimento com a natureza, que teria feito os elefantes ou leões os donos da terra).  De maneira muito singular, os serviços de telefonia são o ícone da má qualidade do serviço do Estado brasileira nas últimas décadas. Não há exemplos mais sólidos do que os prazos necessários para a instalação de linhas telefônicas, ou a forma limitada de propriedade delas durantes as décadas até os anos 90.

Paradoxalmente, o serviço do Estado é louvado quando tratamos de educação pública naquele mesmo período. Sempre ouço saudosos que lembram como as escolas públicas eram de altíssima qualidade em seu tempo (antes da década de 90).

Como seria, então, o comunismo, onde 100% dos serviços são prestados pelo Estado? A resposta é simples: depende. Ok, não foi muito boa aos ouvidos, mas será literalmente assim: dependerá do foco de seus gestores.

Os gestores públicos no capitalismo: duas situações

No capitalismo, temos dois ambientes para ação dos gestores públicos: um ambiente ditatorial e um ambiente democrático.

No ambiente democrático, aplicam-se todas as regras acima citadas (engrenagem conhecida do capitalismo): dificilmente o gestor líder será colocado em sua função por mérito e, mesmo quando for, terá uma longa fila de pessoas e empresas a agradar antes de começar a pensar no público em geral.

No ambiente ditatorial, fica muito mais difícil seguir essa linha de dependência de favores do capitalismo tradicional. Por regra, golpes de estado que resultam em ditaduras são apoiados por “donos do poder” descontentes, a saber: empresários e pessoas influentes que reagem a uma tentativa de “socialismo doce” por parte de políticos bem intencionados e que resolvem, por inocência/idealismo/coragem fugir das teias dos favores espúrios. O serviço público no capitalismo ditatorial geralmente segue a lógica de uma “pseudo inteligência”, que coloca os gestores de acordo com a competência em grande parte do tempo, mas engessa sua ação a fim de que agradem aos empresários padrinhos do sistema como um todo.

No comunismo, os gestores públicos e a qualidade

No comunismo, em especial no modelo que eu defendo (em resumo: sistema comunista com votações democráticas, mas com peso diferenciado relacionado ao nível de educação formal e área de conhecimento –> por ignorância não sei se alguém defendeu algo semelhante antes. Para saber mais, veja posts similares anteriores), devido à falta de favores e dependências, será possível pautar a qualidade dos serviços do Estado com base em padrões internacionais, como a ISO 9001.

Infelizmente, não há como aprofundar-me sobre o padrão ISO aqui, mas fica a visão geral de que é uma somatória, cientificamente aceita, das melhores práticas das empresas existentes. Talvez a melhor forma de explicar ISO 9001 em poucas palavras seja dizer que o foco é o cliente e todas as práticas organizacionais giram em torno disso.

O Estado comunista a ser criado deve ter como prática garantidora da qualidade três parâmetros:

1 – Nível de correspondência com os padrões ISO 9001 (ou similares de mesmo porte, existentes ou a serem criados) –> a ser verificado empresa a empresa pelo Estado.

2 – Nível de satisfação dos empregados públicos a ele vinculados. –> a ser verificado por comissão de empregados das empresas públicas daquela região administrativa.

3 – Nível de satisfação dos usuários do serviço. –> A ser verificado por serviço online de verificação de qualidade.

 

Utilizando-se os três parâmetros será possível criar prêmios (a cada 1, 2 ou 5 anos), que mostrem quais empresas públicas melhor prestam serviços.

 

Pergunta-se: mas e daí? Como isso melhorará a qualidade dos serviços prestados?

A resposta depende de certo nível de maquiavelismo: as empresas ganhadoras de prêmios (que podem ser muitas, talvez as 40% melhores por cada região administrativa) dividirão bônus e vantagens entre seus funcionários. Empresas públicas com nível extremamente baixo de qualidade terão troca compulsória de direção, talvez trazendo líderes de outras empresas mais bem sucedidas como consultores.

Acredito que, dessa forma, será possível chegar à qualidade máxima nos serviços prestados aos brasileiros, seja dentro (como clientes internos) ou fora de seus locais de trabalho.

 

Infelizmente tenho que sair agora, mas os outros pontos faltantes virão em novos “pensando diferente”, sempre com foco em destruir o sistema capitalista e substituí-lo por um sistema que seja minimamente justo, como o comunismo que proponho (e que apenas com muito suor (e sangue, infelizmente) será aplicado, mas que faz-me feliz apenas por existir em minha mente e por ser transmitido a vocês).

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