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O Melhor Chanceler do Mundo

Traduzido por Daniel Cardoso Tavares
Fonte: http://rothkopf.foreignpolicy.com/posts/2009/10/07/the_world_s_best_foreign_minister

Celso Amorim e Lula

Este deve ter sido o melhor mês para o Brasil desde junho de 1494. Foi nessa data que o Tratado de Tordesilhas foi assinado, dando a Portugal tudo que estava a leste da linha imaginária situada a 370 léguas das ilhas do Cabo Verde. Isso garantiu que aquilo que viria a ser o Brasil seria de Portugal e teria uma cultura e identidade muito diferentes do resto da América Latina espanhola. Garantiu, também, que o mundo tivesse o samba, o churrasco, a "Garota de Ipanema" e, por conta de uma complexa cadeia de eventos, Gisele Bündchen.

Enquanto levou ao Brasil algum tempo para que ele incorporasse a máxima de que era "o país do amanhã", existe pouca dúvida de que o amanhã chegou para o país, mesmo que muito trabalho ainda precise ser feito para vencer os sérios desafios sociais e alavancar seu extraordinário potencial econômico.

As evidências de que algo novo e importante está acontecendo no Brasil começaram a alguns anos atrás, quando o Presidente Cardoso arquitetou uma mudança em direção à ortodoxia econômica que estabilizou o país, afetado por ciclos de crescimento e queda e forte inflação. Ganhou ímpeto, porém, com o extraordinário mandato do Presidente Lula.

Parte desse momentum deve-se ao comprometimento de Lula em preservar os fundamentos da economia estabelecidos por Cardoso, um movimento político corajoso para um líder do Partidos dos Trabalhadores. Parte deve-se à sorte, uma mudança no paradigma energético global que ajudou a fazer com que os 30 anos de desenvolvimento brasileiro em biodiesel começassem a lucrar, descobertas maciças de petróleo e a crescente demanda asiática, que permitiram ao Brasil tornar-se um líder em exportações agrícolas e assumir o papel de "celeiro asiático" (termo original: breadbasket of Asia). Muito disso, porém, deve-se à grande habilidade dos líderes brasileiros em entenderem e aproveitarem-se do momento, algo que muitos de seus predecessores provavelmente teriam deixado escapar.

Dentre esses líderes, muito do crédito vai para o Presidente Lula, que tornou-se algo como uma estrela do rock na cena internacional, utilizando energia, direcionamento, carisma, sobrenatural intuição e senso comum, de forma a fazer com que sua falta de educação formal raramente tenha sido um impedimento. Outra parte do crédito vai para os outros membros do seu time, como a Ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, uma ex-ministra da energia que tornou-se uma chefe muito dura e possível sucessora de Lula, mas eu acredito que grande parte disso deve-se a Celso Amorim, que arquitetou uma mudança de papel do Brasil no mundo que é quase sem precedentes na história moderna. Ele tem sido o Chanceler de Lula desde 2003 (ele também esteve na mesma posição na década de 90), mas eu acredito que existe uma boa possibilidade de que ele seja atualmente o Ministro das Relações Exteriores mais bem sucedido do mundo.

É quase impossível detalhar um único momento decisivo nos esforços de Amorim em transformar o Brasil de uma desajeitada potência regional de duvidosa capacidade internacional em um dos mais importantes "jogadores" do cenário internacional, reconhecido por consenso global em um papel de liderança sem precedentes. Pode ter acontecido quando  coordenou a oposição dos países emergentes à abordagem dos EUA e Europa durante as negociações comerciais de Cancun, em 2003. Pode ter sido a sagaz maneira na qual os brasileiros utilizaram questões como a liderança nos biodieseis para construir novo diálogo e influência, tanto com os EUA, quanto com outras potências emergentes. Certamente envolveu seu abraço à idéia de transformar os BRICs de uma simples junção de letrinhas em uma importante iniciativa de colaboração geopolítica, trabalhando com suas contrapartes na Rússia, Índia e China para institucionalizar o diálogo entre os países e coordenar suas mensagens. ( O país que saiu ganhando foi o Brasil. Rússia, China e Índia tem bons lugares na mesa devido ao potencial militar, tamanho da população, força econômica e recursos. O Brasil tem todos esses fatores… mas menos que os outros). Também envolveu incontáveis outros aspectos, iniciando por seus profundos laços com a China e outros países semelhantes, sua promoção de fluxos de investimentos e a garantia de ser um porto comparativamente seguro na atual turbulência econômica, o "nível de conforto" que o novo presidente dos EUA tem com sua contraparte brasileira – até expandindo e encorajando os brasileiros a assumirem papel de ligação, por exemplo, com os iranianos. Concordando ou não com todas as suas ações em questões como a de Honduras ou o apoio a Cuba na OEA, o Brasil tem continuado a exercer um importante papel regional, mesmo que claramente seu foco tenha mudado para o palco internacional.

Nada melhor ilustra como o Brasil foi longe ou quão efetivo tem sido o time de Lula quanto os eventos da última semana. Primeiro, todos os países concordaram em despachar o G8 e abraçar o G20, garantindo ao Brasil um lugar permanente na mais importante mesa do mundo. Em seguida, o Brasil tornou-se o primeiro país da América Latina a ser honrado com o direito de sediar as Olimpíadas. Ontem, o Financial Times noticiou que a "Ásia e o Brasil lideram crescimento na confiança do consumidor" , um reflexo da reputação efetivamente vendida pelo governo ( com a maior parte do crédito indo para um renascido setor privado brasileiro). As histórias dessa semana sobre a reunião do FMI-Banco Mundial, em Istambul, mostram uma maior institucionalização do novo papel do Brasil com o acordo de mudar a estrutura do FMI.  De acordo com o Washington Post de hoje: "As nações também concordaram preliminarmente em reformular a estrutura de votos do fundo, prometendo um projeto que dará maior poder aos gigantes emergentes como Brasil e China em janeiro de 2011."

Nada mal para um trabalho de poucos dias. O Ministro da Fazenda do Brasil é aquele que está nas reuniões do FMI-Banco Mundial, mas o indisputável arquiteto dessa notável transformação do papel brasileiro é Amorim.

Muito trabalho precisa ser feito, é claro. Parte dele tem a ver com o novo papel adotado. O Brasil quer um assento permanente no CSNU e uma atuação de liderança em outras instituições internacionais. Ele até pode consegui-lo, mas terá que manter seu crescimento e estabilidade para chegar lá. Além disso, o Brasil parece inclinado a minimizar ameaças regionais tais como a da Venezuela (os brasileiros tendem a menosprezar seus parceiros do norte quase tanto quanto seus amigos argentinos ao sul… e ainda subestimam a habilidade de homens como Hugo Chávez em causaram muitos estragos.) Eles tem uma eleição aproximando-se que pode mudar a lista de jogadores e, claro, alterar a trajetória atual de muitas formas, boas ou más.

É, porém, difícil pensar em outro Chanceler que tenha tão eficazmente orquestrado uma transformação tão significativa do papel internacional de seu país. É por isso que, se for levado a um pleito hoje, meu voto seria para o filho nativo de Santos, Celso Amorim, como o melhor ministro das relações exteriores do mundo.

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