Arquivo do mês: fevereiro 2011
Por Daniel Cardoso Tavares
Fonte: A Tarde
Os Estados Unidos afirmaram estar preparados para oferecer "qualquer tipo de assistência" aos líbios que desejam derrubar o regime de Muamar Kadafi. Forças contrárias ao governante tomaram várias cidades no oeste do país e ameaçam seguir até Trípoli. A secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, uniu-se aos apelos pela renúncia de Kadafi, que incluem o apelo do presidente dos EUA, Barack Obama.
"Nós estamos apenas no começo do que ocorrerá após Kadafi", disse ontem Hillary. "Primeiro nós precisamos ver o fim desse regime, sem mais banhos de sangue", afirmou ela, notando que Washington espera a queda do governante "o mais rápido possível". Hoje a secretária de Estado se encontra com a Alta Comissária da Organização das Nações Unidas (ONU) para Direitos Humanos, Navi Pillay. Também terá conversas bilaterais com vários chanceleres sobre a crise na Líbia.
O jornal The New York Times informou na noite de ontem que funcionários europeus discutem planos para impor uma zona de restrição aérea sobre a Líbia, a fim de se evitar a morte de mais civis por tropas leais a Kadafi.
O ministro das Relações Exteriores da Itália, Franco Frattini, disse ontem que um tratado de amizade firmado entre a Itália e a Líbia em 2008 estava "suspenso de facto". Segundo o jornal britânico The Times, o acordo inclui uma cláusula de não agressão que, para alguns analistas, complica a posição da Itália, caso ocorra uma intervenção militar na Líbia.
Funcionários dos EUA afirmaram ontem que avaliam se os militares podem interromper a comunicação na Líbia, para que Kadafi não consiga transmitir mensagens à população, disse o jornal. O Conselho de Segurança da ONU impôs proibição a viagens e congelou ativos de pessoas do governo da Líbia.
Comentário
Este momento é importantíssimo e creio que seja uma das discussões mais difíceis de ser feita no campo das Relações Internacionais: qual o limite entre exigir o respeito à população, evitando massacres, e simplesmente invadir um país?
Em comentários nos últimos dias, Fidel Castro alertava para o desejo da OTAN de invadir a Líbia. Parece que isso está quase a ponto de acontecer.
Resta a pergunta: até que ponto é certo interferir militarmente em um país que vive a situação atual da Líbia?
Para mim, as coisas só vão piorar com uma invasão, ainda mais com invasores tão isentos como os EUA. Eles tem grande histórico de dar armas para certos povos ou grupos se defenderem de outros: vide Al Qaeda e Taleban, que são seus filhotinhos preferidos, até hoje amados.
Muitos não concordarão, mas o melhor, para mim, é simplesmente deixar que as forças internas da Líbia tomem seus rumos. Que os generais de Kadafi convertam-se, como já vem acontecendo, ao pensamento do povo. É um processo de "catarse" que não deve sofrer interferência externa.
De qualquer forma, creio que o Brasil deva lutar contra qualquer tipo de intervenção armada. Talvez até seja adequado adotar o "diplomatiquês" para ficar em cima do muro em certos momentos. O problema é que ao apoiar uma quebra da soberania na Líbia estaremos abrindo perigoso precedente para outras quebras, como até mesmo aqui no Brasil, mesmo que em futuro ainda não delineável. Soberania é algo sacrossanto, permita que uma seja violada e você começa a criar o caos e a paranoia.
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Fonte: Steven B. Smith, professor de Filosofia Política em Yale (vídeo 2 em http://www.politicaexterna.com/18014)
O bom cidadão, diz Aristóteles, é relativo ao regime.
Ou seja, o bom cidadão de uma democracia não será necessariamente a mesma pessoa ou o mesmo tipo de pessoa que o de uma monarquia, ou de uma aristocracia.
A virtude do cidadão é relativa, ou, poderíamos dizer, relativa ao regime.
Apenas no melhor regime, ele diz, poderiam as melhores pessoas e os melhores cidadãos serem os mesmos, mas qual é o melhor regime?
Ao menos até agora ele não nos disse.
O que ele quer dizer, é que existem vários tipos de regimes e, assim, vários tipos de cidadania apropriada a eles.
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Fonte: Estadão
Barack Obama visitará o Brasil no próximo mês e as relações entre os dois países não podem ser consideradas ruins. Mas dificilmente o presidente dos EUA apoiará a inclusão dos brasileiros como membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas como fez no ano passado com os indianos.
Depois de o Brasil se posicionar contra as sanções ao Irã em junho de 2010, uma nova disputa ocorreu neste sábado durante as negociações sobre uma resolução contra Muamar Kadafi integrantes de seu regime. Ao votar a favor do texto, na noite de sábado, o Brasil criticou indiretamente os Estados Unidos. O problema, recorrente nas relações entre americanos e brasileiros, era referente ao Tribunal Penal Internacional (TPI).
Em uma das principais divergências para aprovar a resolução, a administração de Barack Obama exigiu a inclusão de um parágrafo em que garantia isenção de cidadãos de países não signatários do Tratado de Roma da jurisdição do TPI. Os EUA temem que autoridades do país sejam processadas pelo tribunal por suas participações nas guerras no Iraque e no Afeganistão. Além dos americanos, dois outros membros permanentes do CS não são signatários do Tratado de Roma – Rússia e China. Mas russos e chineses não faziam questão da inclusão do parágrafo. A Líbia tampouco faz parte do TPI.
Considerando a posição de Washington hipócrita, os brasileiros ameaçaram votar contra e apenas apoiaram o texto devido à urgência da questão líbia e o papel do país como presidente CS.
No meio tempo, os americanos vazaram para a imprensa a informação de que os brasileiros estariam sabotando um acordo, junto com Portugal. A notícia foi difundida por órgãos de imprensa internacionais. Eu estava na sede do conselho, assim como meus concorrentes da Folha (Álvaro Fagundes) e do Globo (Fernanda Godoy). E o porta-voz português, assim como um diplomata brasileiro envolvido nas negociações, negavam a informação difundida pelas agências de notícias.
A postura americana irritou a diplomacia brasileira que fez questão de deixar clara a insatisfação em uma ressalva na explicação do voto na noite de sábado no Conselho de Segurança da ONU. “Nós expressamos nossa forte reserva ao Parágrafo 6 (o que exigia a isenção). Reiteramos nossa convicção de que iniciativas que busquem estabelecer isenções da jurisdição do TPI sobre certas categorias de indivíduos não contribuem para fazer avançar a causa da justiça e da responsabilidade e não contribuirão para o fortalecimento do tribunal”, disse a embaixadora do Brasil junto às Nações Unidas, Maria Luiza Viotti, ao explicar o voto brasileiro.
A embaixadora dos EUA, Susan Rice, na explicação do voto, não disse os motivos que levaram à inclusão do parágrafo que garante a isenção de cidadãos de países não signatários do Tratado de Roma, que reconhece a jurisdição do TPI. Mas, segundo o Estado apurou, os americanos ameaçaram vetar o texto se não fosse colocado o anexo, utilizado no passado em sanções contra o Sudão e seu líder Omar Bashir envolvendo o TPI.
A ONU teve que esperar o líder chinês acordar
As delegações de todos os países do CS das Nações Unidas acordaram cedo no sábado para discutir uma resolução contra Muamar Kadafi e membros de seu regime. Depois de sete horas de negociação, chegaram a um acordo. Eram 16h em Nova York. Jornalistas e diplomatas estavam com fome em uma ONU com a lanchonete fechada. Erta complicado sair e voltar. A ONU está em reforma e é preciso cruzar a garagens e uma série de portas em que o crachá dos jornalistas não funciona. O processo levava mais de meia-hora. Todos queriam aproveitar o fim de semana. E ficaram empolgados porque ainda pegariam o por do sol depois da votação que puniria o líder líbio.
Isso, claro, se não tivessem que esperar o sol nascer no outro lado do mundo, em Pequim. A delegação chinesa pediu para que todos os países esperassem até o líder chinês, Hu Jintao, dar o aval para acordo, segundo disseram ao Estado diplomatas franceses e brasileiros. Mas ele estava dormindo, já que era madrugada no oriente. Apenas depois do contato por telefone, quando o homem forte da China havia acordado, os chineses afirmaram que o voto poderia ser levado para plenário. Quando o embaixador chinês levantou a mão dizendo “sim” a favor das sanções, os jornalistas (e diplomatas) celebraram. Era 21h e finalmente todos podiam encerrar os trabalhos e aproveitar o que restava do sábado.
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Tradução por Daniel Cardoso Tavares
No último dia 26, no Conselho de Segurança das Nações Unidas, por ocasião da votação que aprovou por unanimidade a Resolução 1970, sobre a situação na Líbia, a Representante Permanente do Brasil, Embaixadora Maria Luiza Ribeiro Viotti, proferiu a seguinte explicação de voto:
O Brasil votou a favor da resolução 1970.
Estamos profundamente abalados pela dramática situação na Líbia. O nível de violência contra a população civil é totalmente inaceitável.
O governo do Brasil publica e firmemente condenou o uso da violência e pediu às autoridades da Líbia para que garantam e protejam o direito de livre expressão dos manifestantes, assim como procure uma solução para a crise por meio do diálogo.
As medidas que tomamos hoje visam parar a violência, garantir a proteção da população civil e promover o respeito à lei internacional.
Ao adotar essa resolução como uma questão de urgência, o Conselho de Segurança manda claro sinal de sua prontidão para responder à situação na Líbia de maneira consistente com suas responsabilidades.
Em nossas deliberações hoje, o Brasil deu o devido peso às opiniões da Liga dos Estados Árabes e à União Africana, assim como a todos os pedidos feitos pela Missão Permanente da Líbia na ONU.
O Brasil também teve em mente a necessidade de garantir a segurança de todos os estrangeiros, incluindo aqueles que ainda estão e querem sair do país.
Distintos membros do Conselho,
O Brasil é um histórico apoiador da integralidade e universalidade do Estatuto de Roma. Somos contrários à dispensa de jurisdição para nacionais de países que não são parte do Estatuto de Roma.
Em face da gravidade da situação na Líbia, e a mais urgente necessidade para que o Conselho mande uma mensagem forte e unida, minha delegação apoiou a resolução.
Expressamos, contudo, nossa forte reserva a respeito do Parágrafo Operativo 6.
Reiteramos nossa convicção de que iniciativas voltadas para o estabelecimento de isenções a certos tipos de indivíduos da Corte Penal Internacional não são favoráveis à promoção da causa da justiça e da transparência e não contribuirão com o fortalecimento do papel da Corte.
O Brasil espera que a resolução contribua para o fim da violência na Líbia, a fim de que o país possa rapidamente encontrar uma solução para a crise por meio do diálogo e da reconciliação.
O engajamento contínuo por parte da comunidade internacional será essencial para garantir que o banho de sangue cesse e para que a Líbia retorne à estabilidade.
Obrigado.
Operative Paragraph 6
“Decides that nationals, current or former officials or personnel from a State outside the Libyan Arab Jamahiriya which is not a party to the Rome Statute of the International Criminal Court shall be subject to the exclusive jurisdiction of that State for all alleged acts or omissions arising out of or related to operations in the Libyan Arab Jamahiriya established or authorized by the Council, unless such exclusive jurisdiction has been expressly waived by the State”
Comentário
Muito bom, muito bom. O discurso deixa bem claro o caráter de excepcionalidade da situação, mantendo boa margem de flexibilidade para que possamos continuar agindo de nossa maneira habitual, sem gerar contradição com votações passadas.
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Por Daniel Cardoso Tavares
Fonte: Zero Hora
Considerada estratégica para elevar o Brasil à potência militar, a compra dos caças supersônicos para a Força Aérea recebeu contornos políticos e comerciais da presidente Dilma Rousseff. Embora a transferência de tecnologia ainda tenha peso na escolha do fornecedor, o governo agora pretende obter em troca uma serie de vantagens econômicas.
O primeiro sinal de que houve mudança de rumo foi a inclusão nas negociações do ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Fernando Pimentel. As discussões envolvem desde a abertura do mercado americano para o etanol brasileiro até o apoio ao sonho de obter uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU.
Até então favoritos do governo, os caças franceses Rafale perderam terreno com a suspensão da compra. Por outro lado, a aproximação cada vez maior do Planalto com os EUA vem sensibilizando Dilma. Os dois países se opõem justamente à França no G-20. Como são grandes produtores de produtos básicos, como vegetais e minérios, Brasil e EUA estão juntos na luta contra o controle de preço das commodities. Esse alinhamento se tornou ainda mais robusto após as audiências concedidas por Dilma ao senador John McCain, defensor da indústria bélica americana, e do secretário do Tesouro dos EUA, Timothy Geithner. A parceria pode se ampliar com a visita do presidente Barack Obama ao Brasil, em março.
– Esses movimentos representam sinais de boa vontade dos dois países, selando um acordo comercial. Em troca, o Brasil poderia comprar os caças americanos. É simbólico – diz um interlocutor de Pimentel.
Os obstáculos para a compra dos F-18 da Boeing, porém, são justamente o pacote que envolve a transferência de tecnologia. Embora a Casa Branca garanta que alguns componentes críticos possam ser fabricados no Brasil – algo então inédito –, qualquer acordo bilateral precisaria de chancela do Congresso americano.
– Os americanos não são confiáveis. Eles vêm com promessas, mas depois não cumprem – diz um brigadeiro.
Nos hangares da FAB, o supersônico preferido é o sueco Gripen. O diretor da fabricante Saab no Brasil, Bengt Janér, se diz tranquilo se a disposição do Brasil for prover o país de tecnologia militar de ponta e investir na fabricação de um caça junto com a Embraer.
– A nossa plataforma é consagrada em cinco países e tornaria o Brasil independente nessa tecnologia militar. Mas não temos a mesma força política e comercial – admite Janér.
Comentário
Nunca, nunca deve-se subordinar a segurança nacional a promessas de qualquer tipo, ainda mais de um país com fortes indícios de ser trapaceiro e descumprir acordos, como os EUA. Nelson Jobim é um dos mais fortes opositores de um acordo com os americanos e, de acordo com ele, em entrevista ao programa 3 a 1 (acho que é esse o nome), já ha algum tempo: os americanos têm um grande histórico de descumprirem acordos.
Não podemos correr o risco de ficar sem a transferência de tecnologia dos caças. É simplesmente uma questão de vida ou morte no longo prazo. Os caças não são brinquedos, mas a garantia de que continuaremos vivos em caso de confronto militar.
Infelizmente, os franceses, de Sarkozy, mostraram-se tão salafrários quanto os americanos, em especial no episódio do acordo Brasil – Irã – Turquia. Isso complicou todo o processo de escolha que já estava quase que literalmente finalizado.
No final das contas, a escolha deve ser política, estratégica e de longo prazo, não econômica ou comercial. Se Dilma trocar os caças por promessas da benefícios econômicos por parte dos EUA, eu vou ser obrigado a dizer que ela é simplesmente uma débil mental.
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Por Arthur Melo
Editor DCT
Fonte: http://www.scielo.br
Em sua obra Geografia Política da Água, o geógrafo Wagner Costa Ribeiro, leva os seus leitores a refletir sobre como, atualmente, é gerenciado esse recurso vital não só ao homem, mas também às demais formas de vida presentes na Terra. Para isso levanta questões como: imaginar a água como mercadoria em escala internacional? Pensar na água como possível geradora de conflitos entre países?
Segundo análises do autor, o uso de água nos sistemas industriais, na agricultura e pela população, é desigual. A afirmação é confirmada pela ilustração dos dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), em que apenas 30 países consomem juntos 27% de toda a água disponível no planeta. Dentre esses são citados: Estados unidos, Canadá, França, Noruega, Portugal e Espanha, como os que exageram quer seja para fins de produção industrial quer seja para agricultura.
Ribeiro aponta para, no curto prazo, crises localizadas de falta de água, com origens políticas e econômicas. E as define como reproduções de diferentes estilos de vida que levam a um acesso desigual à riqueza; e, consequentemente, a um acesso desigual aos recursos naturais, aqui, especificamente, os hídricos. Ainda, segundo o autor, essa crise já se faz presente quando temos, no mundo, quase 2,5 bilhões de pessoas sem os serviços de saneamento básico, de acordo com dados da UNESCO.
Os leitores são convidados a compreender o real direito à vida e a perceber que os recursos naturais estão a serviço da vida humana e da coletividade e não aos fins acumulativos de capital. Nesse sentido, os países que em seu território possuem recursos hídricos devem repensar sua posição no cenário internacional nas questões ambientais correlacionadas à água e devem impor-se, favoráveis à preservação e ao uso coletivo desse bem natural.
Uma importante mudança apontada pelo autor é a regulamentação legal do acesso à água. Inúmeros eventos realizados, documentos redigidos e a existência da Convenção de cursos d’água internacionais são passos positivos e fundamentais. Contudo, a questão do direito à água carece de uma legislação interna e externa para que esse recurso não seja usado apenas como capital privado, mas sim pela coletividade.
Segundo o geógrafo, pensar na água pela esfera do conflito remete-nos à distribuição desigual desse recurso no mundo; o que deve gerar mais disputas pelo seu acesso. Os conflitos, que já foram registrados, ocorreram, em geral, entre países fronteiriços, comprovando a possibilidade de lutas por água, mas o autor vai adiante e menciona que, futuramente, os confrontos entre esses países possam admitir a escala da dimensão transfronteiriça.
O autor enumera alternativas de emergência, ao apresentar a proposta de um novo projeto de sociedade, que esvazie de significado o consumo e retome dimensões mais nobres da existência, como as ideias da permanência do tempo longo, da perenidade, do diálogo, do respeito e da implantação de tecnologias ambientais limpas. Em escala planetária, a busca dos países por acordos multilaterais equitativos e responsáveis, no que tange ao desenvolvimento sustentável, serve como resposta à real transformação que visa o acesso democrático à água.
Enfim, Ribeiro propõe uma nova ética em Geografia da Política da Água, levando-nos a refletir sobre os recursos hídricos e sobre a possibilidade de um caminho que evite o comércio e a guerra pela água. Para isso, motiva os leitores a perceberem a água como riqueza, como possível geradora de conflitos entre países, como mercadoria em âmbito internacional e como recurso da humanidade.
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Metem porrada em todo mundo. Ao menos 12 pessoas foram mortas em Fallujah, de acordo com a AlJazeera.
Os EUA enfrentam sua própria onda de protestos em Bagdad. O povo Iraquiano foi às ruas exigir que seja dado um fim à "Zona Verde", área fechada da cidade onde ficam os governantes, diplomatas, enfim: onde fica a elite do poder.
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Harry Kreisler, do bom e velho Conversations With History, conversa com Avner Cohen sobre o livro "The Worst-Kept Secret: Israel’s Bargain with the Bomb".
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Comentários por Daniel Cardoso Tavares
Fonte: Correio Braziliense
Nota: Correção em data, eu estava pensando em 7 (VII) e coloquei um XVII, "out of nowhere" no texto. A data da Hégira foi 622.
Na escalada de violência que assola o mundo árabe, em poucas semanas o que era sólido desmancha-se no ar e os ditadores vão caindo, fulminados um a um pela avassaladora descoberta da liberdade. Foi a partir de revoltas populares, na Tunísia e no Egito, que a sociedade civil atreveu-se a repudiar seus tiranos, sem que governos ocidentais ou que organizações internacionais tivessem previamente condenado os despotismos caricatos da região. Parece claro que a história se acelera, provocada pela informação instantânea na internet e em seus tentáculos incontroláveis.
Se a verdade é a realidade, não há propaganda oficial que resista à nudez cruel dos fatos, repercutidos em Facebooks, Twitters e YouTubes. Pena que George Orwell não esteja vivo para constatar que, ao contrário de seu livro 1984, a tecnologia da informação e sua parafernália também pudessem ser ferramentas da liberdade, em vez da opressão totalitária do Big Brother contra o indivíduo e seus anseios. Em meio à crise que se propaga, do norte da África para a Península Arábica e para a Mesopotâmia, uma nova Héjira, em sentido contrário, agora não confessional, mas de caráter político e ideológico, não há como deixar de revisitar os velhos traumas do ocidente em relação ao mundo islâmico. Em particular, do “choque de civilizações”, para evocar a obra e a expressão de Hobsbawm.
No rol das culpas, a leniência de Washington e da União Europeia com ditadores convenientes também está na origem do atraso endêmico dos Estados árabes. A convivência entre as nomenclaturas ricas e, no caso, untadas de petróleo, ao lado de povos miseráveis e alijados de esperança sempre esteve no receituário das revoluções. Aliás, esses contrastes têm constituído fórmulas infalíveis para o levante das massas, das pedras da Bastilha ao muro de Berlim.
A veemente condenação do Brasil à violência repressora de governos contra manifestantes civis desarmados, na fala contundente do ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, seguramente não irá agradar os defensores da política externa seletiva, onde há os amigos e os menos amigos e, depois, eventualmente, os interesses e os princípios do Estado. Não só o governo Obama agiu assim, em primeiro momento, com relação a Mubarak, como os países europeus têm negligenciado o absurdo deficit democrático do mundo árabe, em troca de pretensa ordem regional e contenção dos fundamentalismos.
Porém, o Brasil tem responsabilidades que transcendem aos humores e às falácias do tempo, tanto como país que exerce a Presidência da Comissão de Direitos Humanos da ONU, quanto na confiança que lhe é depositada, como democracia estável, com tradição diplomática e compromissos constitucionais de solução pacífica de controvérsias. Na América Latina, não chega a ser surpresa, no entanto, constatar o esforço dos comandantes Daniel Ortega e Fidel Castro em solidarizarem-se com Kadafi, para denunciar o suposto complô internacional que estaria a persegui-lo. Seria cômico se não fosse trágico. Enquanto as revoltas se propagam ao Yemen, a Barein, onde ancora a quinta frota da Marinha dos Estados Unidos, ao Marrocos e à Argélia, sem poupar os aiatolás iranianos e seu impetuoso presidente atômico, os mortos já são contados às centenas. E, infelizmente, deverão ainda se multiplicar. Ao fim e ao cabo, no entanto, já é claro que os ditadores serão depostos e que os árabes poderão ser protagonistas de seu tempo, em busca da cultura política da qual foram alijados. De novo, contarão com a internet para olhar o mundo ao redor, onde as distâncias virtuais estão ao alcance dos dedos, a comprometer o preconceito e o dogmatismo tão próprio de suas realidades. A lamentar o sacrifício de tantas vidas — e das muitas que ainda haverão — não há como deixar de recordar a memorável frase de John Fitgerald Kennedy: os que fazem impossível a revolução pacífica tornarão inevitável a revolução violenta.
Comentários
Só constatando que:
Em meio à crise que se propaga, do norte da África para a Península Arábica e para a Mesopotâmia, uma nova Héjira, em sentido contrário, agora não confessional, mas de caráter político e ideológico, não há como deixar de revisitar os velhos traumas do ocidente em relação ao mundo islâmico.
Sinceramente, não entendi a ligação com a Hégira. Para quem não conhece, Hégira foi o movimento no qual Maomé e seus seguidores fugiram de Meca para Yatrib, no século VII, em busca de proteção. O motivo do movimento não foi religioso, mas político e ideológico, na medida em que eles eram perseguidos por contradizerem os interesses econômico/políticos da tribo dominante (coraixitas) e terem acabado de sofrer atentado contra suas vidas.
Em particular, do “choque de civilizações”, para evocar a obra e a expressão de Hobsbawm.
Quem falou e escreveu sobre "Choque de Civilizações" foi Huntington, Samuel Huntington.
O que me fez escrever este post, contudo, é o perigo que vem junto com as próximas duas afirmações:
em busca da cultura política da qual foram alijados.
Imperialismo cultural, mais uma vez. Os povos árabes revoltosos acharão sozinhos seus próprios caminhos. O resultado final pode até ser melhor, para eles, que nossa maravilhosa democracia dos ricos. Nada mais saudável em revoluções que a adoção de modelos inéditos, adaptados à realidade local e não importados à força.
a comprometer o preconceito e o dogmatismo tão próprio de suas realidades.
Eu preciso comentar isso? É sério, eu preciso? Vou comentar só para o pessoal menos intuitivo: isso é um absurdo, é um julgamento típico de quem se acha vindo de uma civilização superior.
John Fitgerald Kennedy: os que fazem impossível a revolução pacífica tornarão inevitável a revolução violenta.
Não estou lembrando quando JFK disse isso (não duvido que tenha dito, só não lembro o contexto), mas eu garanto que ele não é exemplo para ninguém. Muita gente endeusa ele sem nem saber porque, talvez por ficarem com peninha pela forma como morreu.
JFK foi eleito com ajuda da máfia e, exatamente por isso e por sua ligação com mafiosos, como Sam Gincana, foi obrigado a preparar a invasão da Baía dos Porcos em Cuba, após a revolução que expulsou, além de Fulgencio Batista, todos os cassinos com os quais os mafiosos americanos faziam fortuna no exterior.
A frase dele, dita em contexto amplo, é realista, mas os interesses políticos mesquinhos que a geraram não devem ser esquecidos.
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Por Daniel Cardoso Tavares
Nota: Entrevista em vídeo do dia 25/02
O Conselho de Segurança da ONU aprovou, por unanimidade, sanções contra as autoridades da Líbia. O país agora passa a sofrer um embargo no comércio de armas e o congelamento dos bens dos líderes no exterior. As decisões foram tomadas como forma de tentar conter a violência contra manifestantes que pedem a saída de Muammar Kadafi.
Como consequência da Resolução 1970, os membros da ONU estão obrigados, então, a congelar imediatamente todos os recursos financeiros de Kadafi em seus países. Também foi imposto um banimento ao direito de viagens dele e de outras pessoas em alto escalão no país, assim como de seus parentes. Em relação ao embargo de armas, estão proibidas a importação e exportação desses equipamentos.
Mesmo reconhecendo que a Líbia não faz parte do Estatuto de Roma, que criou a Corte Penal Internacional, o CSNU exigiu que o país coopere com as investigações sobre os casos de violência desde o dia 15 de fevereiro. Na resolução, os membros do CSNU consideram que "os ataques generalizados e sistemáticos contra a população civil da Líbia podem ser considerados como crimes contra a humanidade."
Por fim, o CSNU exigiu que cesse a violência e que o país "atenda às demandas legítimas da população".
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