Resumo: O Brasil entre Israelenses, Palestinos e Iranianos, por José Flávio Saraiva
Por Daniel C. T.
Fonte: http://meridiano47.info/2009/11/16/o-brasil-entre-israelenses-palestinos-e-iranianos-por-jose-flavio-saraiva/
A visita dos três líderes do Oriente Médio (Israel, Palestina e Irã) em tão curto intervalo não é coincidência. "Cálculo diplomático nacional e oportunidade aberta para os interesses nacionais no jogo de xadrez mantido a distância pelo poder de Washington explicam os fatos e as personagens."
O Brasil, mais habilitado globalmente, quer estar próximo dos grandes temas, além de suas ligações com os emergentes. As visitas servem de pretexto para uma pauta de cooperação mais estreita entre Brasil e EUA.
Obama quer terceirizar em parte as conversas com o Irã e os palestinos menos radicais, como Hahmud Abbas. Ele não precisa de mediações, mas de "peças intermediárias" no "jogo" de tensões acumuladas entre os EUA e os persas, em especial quando trata-se do tema nuclear e do financiamento de radicais palestinos.
Nos últimos meses o Brasil decepcionou-se com os EUA, especialmente por conta do protecionismo, do silêncio sobre o etanol, das bases na Colômbia, das diferenças de metodologia em Honduras e do embaixador "que nunca chega".
As visitas, portanto, são um bom pretexto para estimular um novo padrão de cooperação entre os dois. Lula colabora com o esforço de buscar canais complementares de superação dos conflitos de interesse de Washington, afastando a relação entre Venezuela e Irã, ajuda a diplomacia brasileira na construção do diálogo direto das partes, "as quais o Brasil, felizmente, não faz parte, e não deve fazer."
O Brasil ganha em sua projeção internacional e reduz as críticas ao caráter egoísta da política externa brasileira, que não assume riscos e espera repartir os lucros com o vencedor. A exposição externa é um valor positivo na inserção internacional do Brasil.
Em segundo lugar, mostra o Brasil que seus valores de relações internacionais, como a convivência entre contrários, são possíveis. É pedagógico que os visitantes percebam que um país continental pode abrigar contrários: aqui os primos judeus e palestinos vivem em paz.
E finalmente, reconheçamos que o capitalismo brasileiro já tem o oriente Médio como uma área importante de retomada de negócios. O Brasil já faz negócios importantes com o Irã. "Fecha-se o ciclo das oportunidades e dos cálculos, próprio a um país que começa a avançar para sua maturidade internacional."
Comentários:
Concordo com a lógica geral, mas deixo minhas considerações, lembrando que o que eu omiti significa concordância total com o autor ou falta de melhores argumentos:
Primeiro, lembremos que a visita do Presidente do Irã já tinha sido marcada e adiada, por decisão deles, a muitos meses atrás. Na verdade, acredito que a vinda de Ahmadinejad mais dependia da disponibilidade dele do que de qualquer ideal brasileiro. Reduz-se assim, em parte, o peso da lógica inicial de "não coincidência". Ok, as visitas de Shimon e de Abbas sim podem ter sido cuidadosamente calculadas.
Discordo da visão que liga as visitas a uma tentativa prioritária de reatar laços cooperativos com os EUA. Acredito que o Brasil tem ambições reais de atuar na questão. Para nós uma posição de "ponto de ligação" entre esses atores o os EUA seria, creio eu, menos que o desejado. O Chanceler Amorim já afirmou diversas vezes que, sem querer resolver por sí só a questão, o Brasil pode atuar de forma positiva nas conversações. Eu não senti um tom de "debaixo dos mandos de Washington" na fala dele. Na verdade, ele mesmo já fez referência ao fato de haver críticas à aproximação brasileira da questão "sem pedir permissão" (ipsis literis) às potências tradicionalmente "responsáveis" por aquela área.
Visita de Ahmadinejad adiada
O Presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad adiou indefinidamente sua visita à América Latina. Ele viria aqui no dia 06 de maio e passaria também pela Venezuela, e Equador. Não há previsão para nova visita.
O MRE afirmou que não recebeu confirmação oficial do cancelamento. O Itamaraty soube da notícia por meio da agência oficial do governo iraniano. "Ao deixar o Centro Cultural Banco do Brasil, onde funciona a sede provisória da Presidência da República, o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, não se pronunciou ao ser questionado sobre se o presidente do Irã viria ou não ao Brasil."
"Ahmadinejad deve buscar se reeleger na presidência e o anúncio pode estar relacionado a esse fato. Segundo a Press TV, especula-se no país que todos os partidos que desejam participar da eleição de 12 de junho devem se registrar oficialmente entre 5 e 10 de maio. A Casa Branca demonstrou desconforto com a crescente presença iraniana na América Latina, lembrou a Press TV."



